‘Ciclos’ foi o tema do Retiro de Inverno 2018

O retiro aconteceu de 6 a 9/7, e teve como foco explorar os ciclos singulares, comuns e ecológicas que atravessam nossa existência. Fizemos isso por meio de consciência corporal, de interação com o ambiente e de experimentações do mover do corpo no espaço. E ainda doses de reflexão, conversa, imagens e contemplação. Explorar noções e percepções de ciclos em diferentes dimensões estabeleceu uma ponte com o que nos torna únicos e, ao mesmo tempo, parte de uma coletividade e dos fenômenos próprios do que é vivo. Saiba mais sobre a proposta aqui.

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Ciclos convidam a perceber e questionar

Quando fenômenos se repetem. Quanto têm começo, meio e fim. Quando marcam passagem do tempo. Quando viram registro ou referência para lembrar e reconhecer. Quando integram outros fenômenos em uma mesma dinâmica.

Assim se fazem os ciclos, desde a natureza (do cosmos às células e seus constituintes), passando por nós humanos – tanto no que é orgânico, como no que é sensação, sentimento e pensamento – e revelando o que nos faz sociedade: economia, destruição, colaboração, afetos…

Alguns ciclos se estabelecem independente da nossa vontade ou ação, nos resta observá-los e interagir – como nas estações do ano. Outros nos provocam o autoquestionamento, a necessidade de romper com o que drena fluxos da vida. É o que acontece nos relacionamentos perversos, nos conflitos, na inércia.

E há também aqueles ciclos que se fazem a partir de um olhar, de uma intenção, de um tipo de presença … de uma opção por interagir e transformar. São os ciclos que criamos nós mesmos, com todos os sentidos do corpo, interagindo com os ambientes que nos envolvem e com as relações que atravessam a sociedade. Estão na arte, nos rituais, nos desafios ao status quo, na construção de amizades…

Na perspectiva do humano, os ciclos são um convite para desfrutar um quê de poético que a vida tem e às vezes passa batido quando existimos em modo automático.

O corpo e a natureza nos ensinam a conviver com os ciclos, que muitas vezes demandam energia e serenidade para nos mantermos presentes, confiantes, permeáveis, apesar dos indícios. Pense na política hoje. Pense na crise ambiental.

Ao mesmo tempo em que lembram que nunca existe um ciclo único. Ciclos diferentes convivem a todo tempo e se alguns podem ser mais exaustivos, outros podem ser fertilizadores e transformadores. Um corpo que vence os efeitos de um acidente. Um ecossistema que se regenera após o fogo. Uma nação que vence injustiças.

Reconhecer e dialogar com os ciclos abre espaço para autoconhecimento, conexão com dinâmicas da sociedade e da natureza. Com noções de finitude, criação, renovação, memória, afeto, coletividade e autonomia. Do que é incontrolável e do que é acalentador.

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Impressões que atravessam do mundo antigo à era digital

O que têm em comum as ações triviais de passear pelo centro histórico de uma cidade e de digitar num teclado? Elas têm a ver com o momento em que o corpo passou a imprimir palavras no papel. Eu explico.

Em meados do século XV, o desenvolvimento da prensa móvel abre espaço para um novo modo de guardar e transmitir informações, de pensar, de organizar coisas e de relação com o ambiente. Isso porque a lógica das máquinas de impressão – e dos livros organizados em linhas, parágrafos, capítulos, volumes – estimularam uma perspectiva de sistematização da realidade. Encarando-a a partir de princípios matemáticos e de ordenamento.

Um exemplo são as representações gráficas do globo terrestre. Definir territórios de modo geométrico leva ao aprimoramento das rotas de navegação, à demarcação de fronteiras e de propriedades de terras, e traz para o espaço urbano a busca por uma forma estética sistematizada, por meio de ruas, edifícios, bairros, equipamentos urbanos.

Essa transformação no entendimento e na relação com o espaço estende-se até outros fenômenos político-sociais, como as missões de colonização e evangelização. Isso porque substituíam a mentalidade e o espaço nativos pelas formas de concepção dos conquistadores europeus. E mesmo nas metrópoles europeias surge uma cultura de imposição para lidar com os problemas da expansão urbana pós-revolução industrial. A organização e o controle do espaço tornam-se uma prioridade para governos, políticos e sociedade. E a arquitetura é aplicada para mudar o estilo de vida dos cidadãos.

A sistematização da vida e dos ambientes exprime uma forma de tornar o espaço conhecido, sem ameaças, dominado. É uma forma de habitar pela conquista do ambiente. O espaço, a sociedade, os corpos passam a ser moldados assim como a palavra impressa molda as palavras e as lógicas do pensamento sobre o papel.

Esse modelo mental torna-se tão arraigado que, mesmo na era digital e da comunicação em rede, ele continua impresso na geografia das cidades e nos corpos que digitam.

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