Ciclos convidam a perceber e questionar

Quando fenômenos se repetem. Quanto têm começo, meio e fim. Quando marcam passagem do tempo. Quando viram registro ou referência para lembrar e reconhecer. Quando integram outros fenômenos em uma mesma dinâmica.

Assim se fazem os ciclos, desde a natureza (do cosmos às células e seus constituintes), passando por nós humanos – tanto no que é orgânico, como no que é sensação, sentimento e pensamento – e revelando o que nos faz sociedade: economia, destruição, colaboração, afetos…

Alguns ciclos se estabelecem independente da nossa vontade ou ação, nos resta observá-los e interagir – como nas estações do ano. Outros nos provocam o autoquestionamento, a necessidade de romper com o que drena fluxos da vida. É o que acontece nos relacionamentos perversos, nos conflitos, na inércia.

E há também aqueles ciclos que se fazem a partir de um olhar, de uma intenção, de um tipo de presença … de uma opção por interagir e transformar. São os ciclos que criamos nós mesmos, com todos os sentidos do corpo, interagindo com os ambientes que nos envolvem e com as relações que atravessam a sociedade. Estão na arte, nos rituais, nos desafios ao status quo, na construção de amizades…

Na perspectiva do humano, os ciclos são um convite para desfrutar um quê de poético que a vida tem e às vezes passa batido quando existimos em modo automático.

O corpo e a natureza nos ensinam a conviver com os ciclos, que muitas vezes demandam energia e serenidade para nos mantermos presentes, confiantes, permeáveis, apesar dos indícios. Pense na política hoje. Pense na crise ambiental.

Ao mesmo tempo em que lembram que nunca existe um ciclo único. Ciclos diferentes convivem a todo tempo e se alguns podem ser mais exaustivos, outros podem ser fertilizadores e transformadores. Um corpo que vence os efeitos de um acidente. Um ecossistema que se regenera após o fogo. Uma nação que vence injustiças.

Reconhecer e dialogar com os ciclos abre espaço para autoconhecimento, conexão com dinâmicas da sociedade e da natureza. Com noções de finitude, criação, renovação, memória, afeto, coletividade e autonomia. Do que é incontrolável e do que é acalentador.

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Sexualidade humana como movimento civilizatório

Ancestrais humanos de diferentes espécies já se encontravam e geravam miscigenação de culturas e DNAs há 13 mil anos. Essa é uma constatação científica recente de estudos sobre evolução. Mas é também fruto de um olhar interessado pelo ser humano. No século XIX, Darwin observava seus filhos com a curiosidade de quem testemunha uma espécie realizando-se a cada momento. E isso foi uma influência importante para seu trabalho.

O interesse, a curiosidade e o prazer de descobrir o outro sempre moveu encontros entre culturas do Homo sapiens sapiens. Ajudou a diversificar o código genético e os modos de ser e estar dos humanos no planeta. Incluindo, é claro, o modo como nos tocamos, expressamos, desejamos … como nos relacionamos no afeto e no sexo. Não à toa, é falaciosa a ideia de um DNA puro – assim como não existe um tipo de comportamento que possa ser definido e replicado para quem quer que seja, sem que se prejudique potências e poesias de ser humano.

Os corpos revelam registros vivos dessa história, às vezes de modo ativo e autêntico; às vezes marcados na violência psíquica e física dos estranhamentos e repulsas. Ainda que a crueza se instaure com frequência, vitimando mais quem é mais vulnerável, a essência humana de exalar o que não ousa dizer seu nome está sempre lá, enquanto houver carne, fluidos, pele. Mesmo nas guerras, nas diásporas, nas exclusões … se existe o humano, existe a potência do encontro nas mais diferentes camadas e variações. O único modo de calar ou suprimir seria não mais havendo humanos.

A própria ciência que já se prestou a rotular e apartar, hoje reforça com frequência o fato qualidades humanas que vão para além dos discursos e práticas opressoras. E se ainda é comum classificar humanos segundo fenótipos e comportamentos aparentes, lá vêm aquele vídeo de um fenômeno espontâneo entre pessoas desconhecidas mostrando que nos assemelhamos mais do que costumamos acreditar. É sempre reconciliador lembrar que inspiramos interesse mútuo quando baixamos a guarda e convidamos os sentidos a receber e surpreender-se.

É aí que as paradas LGBTQ mundo afora são convites para celebrar essa potência humana no encontro e na diferença, mesmo que você estranhe show de drag, gogo boy em carro alegórico, música de balada, gírias específicas, gestos espalhafatosos, androgenia, gênero fluido, palavras de ordem, luta por direitos.

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Impressões que atravessam do mundo antigo à era digital

O que têm em comum as ações triviais de passear pelo centro histórico de uma cidade e de digitar num teclado? Elas têm a ver com o momento em que o corpo passou a imprimir palavras no papel. Eu explico.

Em meados do século XV, o desenvolvimento da prensa móvel abre espaço para um novo modo de guardar e transmitir informações, de pensar, de organizar coisas e de relação com o ambiente. Isso porque a lógica das máquinas de impressão – e dos livros organizados em linhas, parágrafos, capítulos, volumes – estimularam uma perspectiva de sistematização da realidade. Encarando-a a partir de princípios matemáticos e de ordenamento.

Um exemplo são as representações gráficas do globo terrestre. Definir territórios de modo geométrico leva ao aprimoramento das rotas de navegação, à demarcação de fronteiras e de propriedades de terras, e traz para o espaço urbano a busca por uma forma estética sistematizada, por meio de ruas, edifícios, bairros, equipamentos urbanos.

Essa transformação no entendimento e na relação com o espaço estende-se até outros fenômenos político-sociais, como as missões de colonização e evangelização. Isso porque substituíam a mentalidade e o espaço nativos pelas formas de concepção dos conquistadores europeus. E mesmo nas metrópoles europeias surge uma cultura de imposição para lidar com os problemas da expansão urbana pós-revolução industrial. A organização e o controle do espaço tornam-se uma prioridade para governos, políticos e sociedade. E a arquitetura é aplicada para mudar o estilo de vida dos cidadãos.

A sistematização da vida e dos ambientes exprime uma forma de tornar o espaço conhecido, sem ameaças, dominado. É uma forma de habitar pela conquista do ambiente. O espaço, a sociedade, os corpos passam a ser moldados assim como a palavra impressa molda as palavras e as lógicas do pensamento sobre o papel.

Esse modelo mental torna-se tão arraigado que, mesmo na era digital e da comunicação em rede, ele continua impresso na geografia das cidades e nos corpos que digitam.

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