Chuvas que destroem, chuvas que educam

Para além dos impactos enormes, com tons de tragédia, as chuvas deste início de 2020 sinalizam mudanças importantes na relação cotidiana que estabelecemos com a mudança climática.

A primeira delas é que a cobertura da mídia sobre o fenômeno saiu da cartilha da previsão do tempo e intempéries do cotidiano para uma espécie de editoria da mudança do clima. No texto, em vídeo, nas entrevistas e podcasts que se multiplicam sobre o tema, está muito mais clara a mensagem de que testemunhamos a ocorrência de fenômenos extremos, de caráter imprevisível mas esperado num contexto de clima desregulado.

A mídia, em geral, afastou-se do tom descontextualizado da cobertura que só renovava a cada ano as cenas de desastres, os questionamentos ao poder público e a lista de impactos dos temporais e enchentes. Justificativas de autoridades dizendo “o problema é que o volume de chuva foi muito maior do que o normal” parecem não ser mais aceitas de bom grado. Há agora uma indagação recorrente: “Este é o novo normal, como vamos dar uma resposta à altura?”

Essa mudança, há muito esperada, na perspectiva da grande imprensa sobre a questão climática vem, possivelmente, como desdobramento de 2019, ano em que a Austrália, Califórnia, Sibéria, Davos e Greta oficializaram a emergência climática como tema do cotidiano planetário. Isto significa que, a partir de agora, as informações nas telas começam a confluir para um mesmo foco. E tornam-se intragáveis os argumentos negacionistas ou relativistas sobre as mudanças do clima.

Outro elemento fundamental, infelizmente, para esse ganho de consciência global sobre o problema é que mais e mais pessoas estão encarando o “novo normal” na dimensão em que ele é incontestável: no corpo. Assistir a cenas de dilúvio pelo cristal líquido das telas é algo impactante, decerto. Mas em seguida aparece um vídeo de bicho, uma fofoca de celebridade, uma mensagem de um amigo, um meme, um sticker, um giphy. E a urgência vai se camuflando na constância do digital.

Já vivenciar um fenômeno extremo, de corpo presente, não é algo que se apague tão fácil da memória. Fica impregnado na sensação da pele molhada, no som insistente da água, no machucado que surge em meio à confusão, no músculo cansado de andar em fuga, no sono perturbado, no frio na barriga de quem está em perigo e na barriga vazia de quem fica ilhado. Além da experiência da perda, que no ser humano sempre se traduz corporalmente.

Como mamíferos, cultivamos o fenômeno involuntário da epimelese, um sentido de apego com as coisas que vem de uma projeção do cuidado que temos com as crias, algo próprio de espécies que amamentam e que cuidam da prole no contato próximo ao corpo. Isso dá outras camadas sensoriais às perdas materiais, que já são um transtorno quando arrasam com o esforço para conquistar a casa, o móvel, o carro, as roupas, o gadget. A perda de bens, para o ser humano, aniquila também referências de presença e pertencimento do corpo no mundo.

E quando as perdas se ampliam para a vida de parentes e amigos, aí a sensação é de faltar mesmo um pedaço de si.

A esperança que fica de tudo isso é que corpos e mídias mantenham esses registros tão presentes que lembrem de questionar os ocupantes e candidatos a cargos públicos o que pensam e o que farão para adaptar cidades, comunidades, toda uma nação ao novo normal que atravessa cada vez mais o cotidiano de todos nós.

Precisamos saber, dos formuladores e executores das políticas públicas, como estão se movendo para essa nova realidade. Quais planos serão apresentados e implementados? Entendem que só falar de piscinão e de verbas de emergência já não basta mais? E quanto às escolas que formam os futuros gestores públicos, estão atentas para a complexidade com a qual têm de dialogar seus formados? E os pais e educadores, estão cientes de que precisam garantir para si e seus filhos conhecimento novo para lidar com o planeta alterado?

Negligenciar o efeito da mudança climáticas nas nossas vidas é ampliar os riscos a que estão submetidos nossos corpos, nossas relações, nossos bens, nossas cidades, nossa economia. No capítulo em que estamos, estar desavisado é quase tão nocivo quanto ser um negacionista. Se vamos escrever um final viável para essa história com contornos de distopia, estes são dois grupos que devem cada vez mais estar afastados da esfera pública, seja ela a midiática, seja a do poder político. Afinal, o futuro já chegou e ele é caótico e frenético. Adaptar-se demanda conhecimento, respiro e ação conjunta.

Acesse o artigo original na coluna mensal de Ricardo Barretto, na Revista Página22:
https://pagina22.com.br/2020/02/15/chuvas-que-destroem-chuvas-que-ensinam/

Foto: Cátia Toffoletto/ Flickr Creative Commons

O Corpo para Educadores e Facilitadores – oficina

Como aproveitar as potências do corpo na formação de pessoas e facilitação de grupos? Descubra na oficina que acontece nos dias 14 e 15 de março, em São Paulo. Inscrições aqui

20190601_201408Educadores, profissionais de RH e treinamento, facilitadores e psicólogos demandam modos instigantes de sensibilizar e engajar seu público, gerar e partilhar conhecimento, e de estimular escuta e abertura das pessoas. Existem muitas técnicas e abordagens para alimentar cada uma dessas dimensões, mas há um fator essencial para dar a sintonia fina em todas elas: o corpo.

Seja no aspecto de percepção de si mesmo durante a atuação profissional, seja para orquestrar um grupo, modular tempos e intensidades, apropriar-se da qualidade cênica de experiências, nutrir a capacidade de criação e improviso, e a habilidade de aproveitar repertórios próprios e também as oportunidades que surgem espontaneamente em cada grupo. O universo corporal é o lugar de percepção e expressão primordial de cada um e da relação com o outro. Apropriar-se das suas potências sensoriais e comunicativas, das suas metáforas e da sua condição integrada com o mundo à volta significa abrir-se a mergulhos mais profundos e voos mais abrangentes no trabalho com grupos.

20190601_193326Pensando nisso, Ricardo Barretto, mentor do ConeCsoma, concebeu as Oficinas para Educadores e Facilitadores, reunindo técnicas, aprendizados e modos autênticos de evocar o corpo na atuação com grupos. Trata-se de abordagens desenvolvidas nos últimos anos, a partir de seu trabalho com equipes de empresas, estudantes universitários, e nos cursos e retiros promovidos pelo ConeCsoma. Estas abordagens têm raiz em estudos de comunicação e sustentabilidade, Body-Mind Centering®, técnicas de educação somática, dança contemporânea e experiência em jogos de improvisação.

20190603_103455A ideia é conectar educadores e facilitadores às potências que só o universo corporal faz emergir, por sua característica de sistema conectivo, entrelaçado em camadas internas e subjetividades, com habilidade de perceber e dialogar com o ambiente, os outros e aspectos biofísicos e imateriais da vida.

A próxima oficina acontece nos dias 14 e 15 de março, em São Paulo, das 8h30 às 18h30, no Espaço ConeCsoma* e terá como foco:

  • identificação de potências do corpo para o trabalho de cada profissional, valorizando e respeitando o repertório de cada um
  • caminhos de consciência corporal, exploração do movimento e percepção de informações sutis do ambiente
  • abordagem ConeCsoma de sensibilizção e ativação do corpo para acessar a inteligência do coletivo
  • abordagem ConeCsoma de sensibilizção e ativação do corpo para acessar novas possibilidades de criação e refinamento de atividades de curta, média e longa duração, tanto nas etapas de elaboração como de execução
  • laboratório de práticas e estratégias para integrar o corpo a contextos formativos
  • rodas de partilha e aprofundamento
  • materiais e referências de apoio

Investimento: 296 reais (pode pagar por transferência ou cartão e também parcelar)

Inscrições aqui

*O ConeCsoma fica na R. da Consolação, 2685 – estúdio 5. A duas quadras das estações Paulista e Consolação do metrô, com estacionamento 24 hrs e também bicicletas compartilhadas logo em frente.

Contato: 11-3280-9879 / 11-99225-2385 / contato@conecsoma.eco.br

Sobre Ricardo Barretto

20180802_fis17_encin_din1_rbComunicólogo e educador somático, entende que fluxos informativos vão além das mídias: incluem das menores partículas ao cosmos, passando pelo corpo e as relações que o atravessam. Sua formação segue uma perspectiva integrada, conectando frentes tão diversas como a graduação em Relações Internacionais (PUC-SP) e a formação em dança contemporânea; pós-graduações em Jornalismo Político (PUC-SP) e em Redes Digitais e Sustentabilidade (ECA-USP), além da formação como Educador do Movimento Somático pelo Body-Mind Centering®.

Foi nos estudos e atuação em Dança, Educação Somática e Comunicação para Sustentabilidade que se interessou pelas conexões que o corpo estabelece com dimensões extracorporais. Essa tem sido sua estrada de reflexão e trabalho, que deu à luz o projeto ConeCsoma. Um desdobramento de uma parceria de 10 anos com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP, que o aproximou da área de Educação e da facilitação de grupos, por meio das experiências corporais, tanto junto a um público jovem, quanto aos mais maduros. E hoje ganha novos rumos com a reflexão e a atuação prática em uma emergente área de conhecimento nas ciências: a Ecossomática.

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Sobre o ConeCsoma

fis18_fldnkrsIniciativa que encara o corpo como rede viva que se relaciona com o mundo por meio de sensação, movimento e pensamento. Propõe mover e explorar o universo corporal para gerar vigor e sensibilidade. E também descobertas, conhecimento e transformações que vão além do próprio corpo.

O projeto ConeCsoma ajuda a acessar essa potência junto a indivíduos, grupos e organizações, por meio de conteúdo digital, de um espaço-laboratório com aulas e oficinas, e de atividades para promover desenvolvimento pessoal, inovar a educação, e levar novas perspectivas a atividades que estimulam a inteligência coletiva.

Veja exemplos da nossa atuação em Educação e Impulso para Organizações.

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Confira como o conhecimento é estimulado pelo corpo em outras edições do FIS

Traduções entre corpo e natureza no retiro de verão 2020

O primeiro retiro de 2020 aconteceu neste fim de semana, em meio ao sol e chuva de verão na região de Atibaia, em São Paulo. Dessa vez, exploramos como corpo, percepção e conhecimento ajudam a traduzir fenômenos da natureza e das relações humanas. O pano de fundo desse retiro foi a noção de que as dinâmicas que estimulam e garantem a sustentação da vida nem sempre são evidentes ao primeiro contato. Trocas, combinações, reações, segmentações, caos, organização, rupturas, recriações, nascimentos. Desde dimensões microscópicas até os fenômenos cósmicos, o que é vivo está envolto em segredos e códigos próprios. Seja na natureza, no corpo, nas relações humanas, na sociedade. Esses mistérios não são impenetráveis e a todo tempo a vida oferece referências que traduzem essas dinâmicas em expressões que o ser humano é capaz de compreender … se abrir os sentidos e aguçar a percepção.

Assim, para iniciar o ano com a vitalidade do verão, o ConeCsoma se inspirou na ideia de “Traduções” a partir do corpo e para além dele, e sob a facilitação de Ricardo Barretto conduziu experiências por meio de consciência corporal, de interação com o ambiente e de experimentações do mover do corpo no espaço e no tempo. E ainda doses de reflexão, conversa, imagens e contemplação.

Algo inédito dessa vez é que nossa imersão foi só de mulheres, o que ajudou a trazer discussões do feminino para as nossas experiências de consciência corporal e investigação de movimento. A perspectiva do feminino ajudou a explorar como a vida realiza seus gestos de Tradução e estabelecer pontes com o que nos torna parte das dimensões macro e micro do universo. Além de conectar o público participante com o que gera no humano a potência de um criador-intérprete da dança universal que atravessa dos átomos às galáxias.

Ou seja, abrimos novas perspectivas para ser humano.

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