Às vezes temos a impressão de que o estímulo para aprender na vida é algo que vai entrando no funil da racionalidade, conforme as pessoas ficam mais velhas e o grau de formação aumenta. A experiência de formação integrada no mestrado de sustentabilidade da FGV-EAESP mostra que isso é uma falácia! O desafio está mais em calibrar estímulos para cada público específico e a partir daí criar caminhos para aguçar a sensibilidade, o conhecimento coletivo, o espírito de comunidade, novas perspectivas de mundo e o autoconhecimento. Tem sido um privilégio lançar pitadas de potência corporal neste processo, revelando para os mestrandos como o saber atravessa e emerge das camadas mais físicas às mais subjetivas e transcendentais do corpo.
Agradecimentos e admiração à turma 4 e a toda a equipe do MPGC-Sustentabilidade.
Boas surpresas das aulas online: num momento de ativar a consciência corporal, com os participantes deitados no chão, a música começa e, em uma das casas, o cachorro que estava agitado pula no sofá, se acomoda e entra em estado de contemplação, como se apreciasse a música e seguisse no próprio corpo as orientações que vinham pela caixa de som. Sabe lá o que se passava dentro dele naquele momento, mas a sensação é que de algum modo surgiu uma conexão com o bicho. Isso faz lembrar de como é especial a conexão entre humanos e animais, que toma formas que vão muito além de reações instintivas. Exemplos existem de monte: as práticas de Doma, com cavalos; a interação por linguagem de sinais com primatas; mamíferos marinhos que ajudam pessoas no mar. Situações singelas que revelam qualidades inusitadas de interação entre corpos de diferentes espécies, fazendo repensar as categorias mentais que usamos para classificar os animais… e os comportamentos estimulados ou desencorajados por elas.
Imagens: ConeCsoma, New York Times, Medical Daily, Hammerfest
A economia por aplicativos faz parte de um processo de digitalização da vida: tudo que existe passa a ter uma dimensão virtual. Isso vale para a natureza, como é o caso das florestas e do clima, monitorados por imagens de satélite e dados de todo tipo. E tb para os seres humanos, desde a comunicação e a construção de personas nas redes sociais até o monitoramento da pandemia da Covid-19.
Pode parecer divertido, às vezes, essencial em outras. Mas há efeitos colaterais. Entre eles, a digitalização da vida afasta as pessoas de perceber e expressar humanidade. Por exemplo, a sensorialidade presencial dos afetos, das relações e dos contatos é abafada por trocas mediadas por aparatos digitais e dados. É o caso dos sistemas de entrega por aplicativos, pelos quais os entregadores são reconhecidos pelo número de entregas, tempo despendido, trajetos realizados, estrelas recebidas, metas batidas etc.
Para que o “modelo de negócio” seja viável, o entregador deve ser visto apenas por sua existência digital. O modelo entra em colapso se encará-lo como um ser encarnado do ponto de vista fisiológico, subjetivo e de sua dignidade. Para o negócio, a satisfação de quem consome conta. A integridade de quem entrega, não. Seu desempenho deve ser compatível com o que estabelecem os algoritmos.
Apesar de tantos dados precisos, o app é calibrado tendo em vista uma abstração: a de que dinheiro é o valor máximo a ser gerado pela empresa. Por trás do discurso moderninho das startups, o que transparece é um capitalismo antigo e abusivo, que exclui da conta tudo que impede que o negócio de ser o mais rentável possível – incluindo corpos e almas. São as “externalidades”. Na época da colonização, uma lógica parecida foi exacerbada para justificar a escravidão.
Há quem diga que o sistema capitalista é inviável. Talvez ele seja possível se valor não se resumir a lucro e se as empresas deixarem a lógica das externalidades. Um desafio tão grande quanto equilibrar nossa relação com o digital, para garantir a sanidade e os laços da humanidade. Conjecturas que parecem pertencer a categorias distintas, mas que remetem a um mesmo princípio: que o valor do vivo venha antes do valor de troca.
*Do artigo Quanto vale a corrida?, publicado na coluna de Ricardo Barretto, na Revista Página22 *Fotos: Periferia em Movimento