Resistências, resiliências e reconfigurações

Por que temos tanta dificuldade em agir agora para evitar o pior no futuro? Além de defeitos como ganância e prepotência, há uma explicação natural: nosso sistema nervoso despende menos energia mantendo um modo de entender e agir sobre a realidade, em vez de gastar calorias para repensar rumos

Surgiram bem cedo na esfera midiática memes, posts, textões, artigos e análises especializadas buscando cravar o significado da pandemia e como será o “momento seguinte”. Há quem assinale um marco da grande mudança espiritual da humanidade, os que falam no começo do fim e os que pensam em como recuperar os números da economia para o que um dia já foi.

Em parte, esse impulso dialoga com a vontade de eliminar o sentido de incerteza que domina o momento que vivemos. Em parte, projeta os anseios e ansiedades de cada autor e replicador. Mas também revelam a própria lógica que sustenta a eclosão da crise de humanidade que vivemos hoje.

Se a construção de cenários futuros e projeções fosse algo de fato norteador, teríamos ouvido a Organização Mundial da Saúde (OMS) ou o Bill Gates lá atrás, quando alertavam para o risco de pandemias. Ou teríamos mudado a distribuição de renda e estruturado os sistemas de saúde para atender, com a dignidade que os mais ricos exigem para si, as necessidades dos mais pobres. Ou ainda teríamos reduzido a degradação ambiental e o tráfico de animais silvestres, muito associados com a deflagração de uma série de doenças.

Para todos esses elementos, já havia estudos e projeções pintando cenários dos quais desviar e outros para onde seguir. Mas algumas características humanas barram nossa capacidade de reposicionamento. Ganância, egocentrismo, prepotência, falta de compaixão, certamente estão entre elas. Mas pensemos aqui na dinâmica cognitiva e de uma cultura humana que prefere reforçar suas crenças a repensar suas certezas.

O sistema nervoso é dado a esse tipo de atalho: despende menos energia mantendo um modo de entender e agir sobre a realidade, em vez de gastar calorias para repensar rumos. Isso é tão arraigado em nós que nem percebemos incorrer nessa armadilha. Mexer em tal condição implica movimentos da ordem do micro: sensibilizar a percepção de si para reconhecer os sinais de quando estamos resistindo a reavaliar, a repensar, a mudar.

Pode parecer trivial, mas temos exemplos contundentes nessa pandemia de como esse tipo de resistência pode se desdobrar em decisões de proporções macro, catastróficas para milhares de pessoas, para os números da economia e assim por diante.

Nesta fotografia, vemos que a crise atual joga foco importante em duas questões. A primeira diz respeito ao olhar integrado para a realidade: se ele não vem proativamente, virá depois como aprendizado doloroso, revelando que mesmo quando o refutamos, continua sendo integrada a qualidade dos sistemas vivos – corpo, micróbios, sociedade, biomas, planeta. A segunda diz respeito à sensorialidade de cada ser humano: o quanto estamos abertos e estimulados a perceber nossos modos de pensar e agir e a criar condições para a resiliência e a transformação.

A falta de perspectiva integrada e da percepção de si mesmo dominam a lógica que nos levou à atual situação de pandemia e acabam por apontar por outro grande desafio oculto. Só seremos capazes de lidar com a complexidade da nossa condição humana, convivendo no sistema complexo que é nosso mundo, se desenvolvermos a sensibilidade que essa existência demanda. Isto significa que, de modo geral, nosso processo formativo até aqui, incluindo o modelo de educação formal, mostrou-se incompatível com a realidade que dialoga conosco a cada segundo e que vai além das contas pra pagar, dos filhos pra criar e da cerveja no bar.

Assim como um vírus, este é um fenômeno que atravessa toda a sociedade, dos mais pobres aos mais ricos. A qualidade das decisões que tomamos, a capacidade de nos percebermos como parte de um sistema inescapavelmente integrado, o modo como cultivamos relações, como definimos bem estar e valores, tudo isso tem a ver também com nossas trajetórias educacionais. Ser formado para memorizar conteúdo, tirar notas, atender a critérios de desempenho desumanizados, receber aplausos, fazer dinheiro e desempenhar funções fechadas em si mesmas, sem a percepção das influências e desdobramentos sobre o mundo, coloca nós todos em uma situação de isolamento não reconhecido.

Daí que as qualidades de resiliência e assimilação da nossa condição integrada são exigidas agora sem que tenhamos um repertório sensível compatível. Isso faz com que viver a pandemia seja um processo ainda mais árduo. E deflagre no corpo a ansiedade por visualizar logo o momento seguinte. E dá-lhe meme, textão, artigo, análise para desenhar uma definição e aplacar o limbo.

Em meio a tudo isso, como o caminho será longo, talvez seja melhor aproveitar o aqui e agora para reconhecer em momentos de ansiedade, de tristeza, de vazio, de perda (mas também de partilha, de solidariedade, de surpresa) condições humanas que devem ser acolhidas e nutridas quando se vive um mundo sistêmico – ainda que em isolamento social.

Reconheça. Faça perguntas a cada sensação ou sentimento que te chama atenção. O que isso fala sobre você, sobre como foi sua formação desde a infância, sobre como você se relaciona com o mundo? Quais aspectos dessa realidade incômoda são sustentados por seus modos de pensar e agir?

E aí, sim, olhe para frente e imagine – outra prática que deveria ser fundamental na nossa formação – o que você gostaria de construir e ver emergir no futuro? Um desejo meu é a educação com ênfase na perspectiva integrada da vida e no estímulo à potência sensorial e sensível do ser humano. Seja como for, o porvir que nos aguarda não está pronto lá na frente. Ele emergirá do modo pelo qual cada um de nós se envolve com o momento presente.

[Foto: Kajetan Sumila/ Unsplash]

Artigo publicado na coluna de Ricardo Barretto, mentor do ConeCsoma, na Reivsta Página22 em abril: https://pagina22.com.br/2020/04/24/resistencias-resiliencias-e-reconfiguracoes/

Como nosso corpo é afetado pela tecnologia digital e como isso impacta as relações sociais

Se pensarmos que o corpo humano foi moldado por milhares de anos para reconhecer, afetar e ser afetado pela riqueza da troca presencial, dá para imaginar a aridez que representa o contato virtual. Dá para entender também tanta sensação de vazio, tanta dificuldade de diálogo, tanta aspereza no trato social – justamente na era da sociedade em rede

A busca da palavra única, autoritária, coincide com a busca de um território sem variações, com uma trama digital sem matizes, com perspectivas sem nuances, diversidade ou consistência. Planificar é um verbo fundamental desse projeto, que se opera em todas as dimensões. Na ambiental, por exemplo, impõe-se queimando, desmatando, drenando a diversidade e achatando a tridimensionalidade natural dos sistemas vivos. E assim prossegue na pauta de costumes, na cultura, na educação, na ciência.

Análises políticas, denúncias jornalísticas, argumentos científicos, alertas sociológicos e psicológicos proliferam para apontar os descaminhos que vivemos hoje no Brasil. Mas em meio à verborragia planificada no digital, um elemento é negligenciado apesar de onipresente.

Para acessá-lo, vale resgatar uma premissa fundamental de diferentes teorias da Comunicação que é o fato de a tecnologia exercer grande influência sobre os modos de perceber, pensar, dialogar, interagir e expressar-se na sociedade. Se convocamos o auxílio da neurociência para compreender esta perspectiva da sensorialidade humana, temos que a cognição não é um produto isolado do cérebro, mas um desdobramento do arranjo integrado de todo o corpo, incluindo suas diferentes estruturas e camadas, suas habilidades sensórias e perceptivas, suas emoções, impulsos, sentimentos e expressões psicomotoras, e suas relações com o ambiente.

Portanto, os efeitos da tecnologia sobre o humano são efeitos sobre o corpo. E como tem passado o corpo dos brasileiros conectados às redes digitais? A cultura de uso intenso dos smartphones significa, por exemplo, que passamos muitas horas imersos na relação com as telas, com um campo visual estreito e bidimensional, e um conjunto de estímulos limitados e muito focados na visão, convocando a cabeça baixa e alguns poucos movimentos de mãos e dedos. Ou seja, a riqueza da sensorialidade e das habilidades do universo corporal, em todas as suas camadas e conexões internas e com o ambiente, é evocado de modo acanhado.

Isso representa menos estímulo ao caráter conectivo reticular do corpo e mais estímulo a uma conectividade reativa e impulsiva. Esbravejamos, reclamamos, replicamos … mas a criatividade, o devaneio, o pensamento capaz de alçar voos na imensidão da mente ficam mais propensos a voos de galinha do que voos de condor.

O simulacro de contato com o outro, via digital, também reduz as trocas presenciais, que são onde a imagem do outro ganha tridimensionalidade, gestos dos pés à cabeça, micro expressões no rosto, nas mãos, nos membros e tronco; onde a conversa tem nuances de temperatura, empatia, desacordos, negociações mediadas por uma orquestração psicobiofísica contínua, bem diferente das frequências homogêneas e planificadas do digital.

Se pensarmos que o corpo humano foi moldado por milhares de anos para reconhecer, afetar e ser afetado pela riqueza da troca presencial, dá para imaginar a aridez que representa o contato virtual. Dá para entender também tanta sensação de vazio, tanta dificuldade de diálogo, tanta aspereza no trato em sociedade.

Não digo que esta sensação que paira no ar de um desarranjo constante seja apenas pela carência do corpo. É claro que todo o contexto político, social, econômico e ambiental que temos vivido exerce pressão implacável sobre todos nós. Mas o fato é que a ausência da primazia ancestral do corpo na contemporaneidade humana alimenta um desalento muitas vezes difícil de reconhecer, de dar nome, de dedicar cuidado.

A pauta aqui não é uma mera questão de sedentarismo, de ir ou não à academia. O assunto é o corpo em suas camadas entrelaçadas … todas elas: as físicas, as subjetivas, as transcendentais. O corpo entorpecido pelo estresse e pelo digital vai afrouxando e deixando de viver esses entrelaçamentos. E de construir sentido a partir deles.

A falta de experiência conectiva do corpo destreina o sistema nervoso – também uma rede viva – a operar, buscar e fazer conexões; a reconhecer e degustar os modos integrados de ser e de estar no mundo. Aumenta, assim, a dificuldade de ser conectivo para além da pele e de ser integrador através do digital. E justamente na era das redes…

Mas esse não é um texto para ser coroado com um emoji de lágrima escorrendo. Este é um chamado para os que são ativistas, os que sentem falta de entrosamento, os que carregam o peso da solidão, os que não conseguem fugir da raiva, os que não conseguem superar a apatia, os que não escutam, os que não abraçam. Tantas condições fragilizadas de comportamento, tendo em comum o mesmo catalizador: a falta de corpo em camadas.

Dificilmente construiremos alternativas às conjunturas que nos desagradam sem mudanças de mentalidades. E transformar fluxos cognitivos implica transformações do corpo – nossa dimensão mais singular, eloquente e onipresente. Assim, além de arregaçar as mangas pelo que se quer, pode ser muito fértil redescobrir o corpo que é ecossistema por dentro e que compõe redes em fluxo por fora.

É preciso reconhecer se cada um de nós está perdendo vitalidade, fechando-se no corpo próprio. É preciso cultivar a respiração, o toque em si e no outro, o abraço, o afeto, o contato. É preciso experimentar liberdade de movimento, de expressão estética, de ludicidade, de descanso e de degustação do universo interno. Corpos com vitalidade, com escuta aberta a perceber seu caráter integrado, são corpos ativamente políticos. Mantêm o sistema nervoso estimulado a reconhecer os fenômenos integrados do mundo. Estão preenchidos e aptos a lidar com as impermanências de hoje, e a instigar a conectividade com os demais. É o que diz o neurônio-espelho e milênios de aprendizado humano pelo contato, pela observação e pela experiência conjunta.

Num momento em que aparecem poucas alternativas além do espernear, dar a chance para o inusitado, o simples, o que está escondido no trivial, pode ser tão efetivo e ousado como foi o movimento das mulheres de Atenas na guerra do Peloponeso. Então dedique uma semana a experimentar seu corpo de outro modo. Que seja um segredo seu, mas experimente.

Perceba que toda ação é um sinal de vida do corpo. Andar na rua é modificar a paisagem de um espaço tridimensional. Respirar é cultivar diálogo entre o ambiente e o sangue. Cruzar olhares é assimilar outro humano único como você. Tocar-se é ativar seu universo sensorial. Permita-se pequenas transgressões de seus padrões. Divirta-se com suas estranhezas e dos outros. Busque atividades para acessar as camadas entrelaçadas esquecidas.

Se não surtir efeito, sempre haverá a rotina digital de todo o dia. Mas se acender algo diferente em seus sentidos, se brotarem desdobramentos que vão além do corpo, continue a experiência na semana seguinte e na outra … e na outra…

*Artigo publicado em 15 de setembro, pela Revista Página22. Acesse aqui

Conexão cérebro-espinhal une cognição, estrutura e mobilidade

Muitos associam a mente exclusivamente ao cérebro, mas a cognição humana é fruto da ação conjunta de todo o corpo. Do outro lado, o cérebro não tem apenas um papel cognitivo. Ele participa da mobilidade da cabeça, de relações de equilíbrio e presença no espaço. Tudo isso em conexão com fluidos e com a coluna, que estrutura a ligação entre crânio, vértebras e músculos; e conecta medula e fibras nervosas que se ramificam pelo corpo. Ou seja, mover com fluidez estimula pensar com desenvoltura.

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