Impressões que atravessam do mundo antigo à era digital

O que têm em comum as ações triviais de passear pelo centro histórico de uma cidade e de digitar num teclado? Elas têm a ver com o momento em que o corpo passou a imprimir palavras no papel. Eu explico.

Em meados do século XV, o desenvolvimento da prensa móvel abre espaço para um novo modo de guardar e transmitir informações, de pensar, de organizar coisas e de relação com o ambiente. Isso porque a lógica das máquinas de impressão – e dos livros organizados em linhas, parágrafos, capítulos, volumes – estimularam uma perspectiva de sistematização da realidade. Encarando-a a partir de princípios matemáticos e de ordenamento.

Um exemplo são as representações gráficas do globo terrestre. Definir territórios de modo geométrico leva ao aprimoramento das rotas de navegação, à demarcação de fronteiras e de propriedades de terras, e traz para o espaço urbano a busca por uma forma estética sistematizada, por meio de ruas, edifícios, bairros, equipamentos urbanos.

Essa transformação no entendimento e na relação com o espaço estende-se até outros fenômenos político-sociais, como as missões de colonização e evangelização. Isso porque substituíam a mentalidade e o espaço nativos pelas formas de concepção dos conquistadores europeus. E mesmo nas metrópoles europeias surge uma cultura de imposição para lidar com os problemas da expansão urbana pós-revolução industrial. A organização e o controle do espaço tornam-se uma prioridade para governos, políticos e sociedade. E a arquitetura é aplicada para mudar o estilo de vida dos cidadãos.

A sistematização da vida e dos ambientes exprime uma forma de tornar o espaço conhecido, sem ameaças, dominado. É uma forma de habitar pela conquista do ambiente. O espaço, a sociedade, os corpos passam a ser moldados assim como a palavra impressa molda as palavras e as lógicas do pensamento sobre o papel.

Esse modelo mental torna-se tão arraigado que, mesmo na era digital e da comunicação em rede, ele continua impresso na geografia das cidades e nos corpos que digitam.

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Fluxos em rede aproximam natureza, corpo e sociedade

O interior do corpo revela redes interconectadas: neurônios, fluidos, tecidos, células. Microrganismos também compõem esse universo e são vitais para algumas funções corporais. Estas também estão em rede. Circular sangue, por exemplo, vem da colaboração entre coração, pulmões, vasos, músculos, corpo em movimento. Emblemático mesmo é o comunicar: órgãos dos sentidos, estruturas físicas e arranjos psíquicos geram o diálogo com outros corpos, com o ambiente que nos sustenta e as tecnologias que usamos. Dentro e fora entrelaçados e transorgânicos.

O corpo formado por redes de estruturas e organismos ajuda a lembrar que a vida é um fenômeno de conexões e trocas. A natureza está toda integrada e as relações entre seres vivos, elementos da paisagem e fenômenos periódicos (como o clima) vão modificando o planeta. O mesmo ocorre em escalas menores e maiores, como as interações entre átomos, ondas, partículas, astros, planetas … uma dança incessante que configura o cosmos que habitamos. E que percebemos pela observação direta, pela transmissão de conhecimento e pelas tecnologias que vasculham o universo.

Não é à toa que o corpo em rede, que habita a natureza em rede, crie um mundo de tecnologias e sistemas que também se conectam e influenciam tanto o ser humano como o ambiente. Assim, o corpo faz a conexão de cada um de nós com a sociedade e o ambiente. Quando os pulmões enchem e esvaziam como as marés. Quando químicas intoxicam pessoas, bichos e plantas. Quando as ruas de uma cidade lembram artérias e veias. Quando as redes digitais dialogam com nossos neurônios.

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Ser humano de corpo, alma, tecnologia

O que nos identifica como humanidade? Pensar, amar, cultura, ritos, espiritualidade? Uma das características talvez não seja tão poética. Como compartilhar uma ideia que martela a cabeça sem escrever ou gravar um depoimento? Como amar visceralmente sem mandar mensagens apaixonadas? E como pensar cultura sem música feita em algum instrumento, sem roupa de algum tecido, sem comida de algum prato ou cuia? E devoção religiosa sem objetos ou templos? Pode soar frustrante, mas é difícil expressar nosso existir sem um pouco de tecnologia.

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