Manifestação de corpo presente e de corpo futuro

Estar junto de corpo presente é lembrar que somos um povo para além dos mapas e infográficos sobre a pandemia na TV. É ser atravessado por um desejo de mobilizar a reapropriação e a reconstrução coletiva de um país, desde sua política e seu tecido social até os símbolos constrangidos, como a bandeira nacional

Coluna de Ricardo Barretto para a Revista Página22

Início da tarde de sábado, 29 de maio. Uma chuva forte e rápida cai de repente em São Paulo, com gotas grossas, ventania e muita agitação das copas de árvores. Em menos de meia hora, o ar seco da estiagem na cidade se tornou úmido e respirável e as ruas foram ganhando o brilho dos raios de sol que surgiram em seguida. Como se o ambiente fizesse um convite para sair de casa. Havia um encontro marcado, mas uma dúvida sobre sua pertinência. Não só em São Paulo, mas por todo o País, um chamado iniciado por movimentos sociais e partidos políticos conclamava as pessoas a ocuparem o espaço público e mostrarem a indignação coletiva contra os descaminhos do governo que multiplicaram as mortes na pandemia da Covid-19, que retardaram o processo de vacinação no País, que aprofundaram as dificuldades econômicas do período e que intensificaram a atmosfera de ecocídio deflagrada há mais de dois anos no Brasil.

A dúvida que pairava no ar era se a indignação justificada poderia gerar uma ampliação do contágio – um dos elementos contra o qual o evento foi organizado – uma vez que as ruas fossem tomadas por uma aglomeração de corpos em protesto.

Essa pergunta silenciosa na mente de cada pessoa, se revelava na paisagem vista de cima. No ponto de encontro em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), uma referência de cultura e ajuntamentos populares na cidade, havia um adensamento dos participantes e da cor vermelha.

Para além daquele miolo, o que se via era um espalhamento da manifestação, com agrupamentos entre conhecidos e espaço de circulação e respiro conectando essa coletividade que ia chegando aos poucos e continuamente, tateando e encontrando seu lugar. E todos, todos, de máscara, muitas pessoas com camada dupla, feita com o equipamento distribuído gratuitamente no evento.

Separados para combater o vírus, juntos para combater o verme. Essa frase em um dos cartazes dava o tom da manifestação, que tinha um propósito político, um sentimento de basta e um espírito de cuidado mútuo.

Para quem vinha de um regime de distanciamento social há cerca de 15 meses, a sensação de circular de novo na rua, junto de milhares de pessoas, causava num primeiro momento um certo frio na barriga. Um impulso de atenção e reconhecimento de como os outros corpos se apresentavam e se comportavam. Conforme a atmosfera de cuidado partilhado se revelava, as emoções começavam a aflorar.

Estar junto de corpo presente é lembrar que somos um povo para além dos mapas e infográficos sobre a pandemia na TV. É ser atravessado por um desejo de mobilizar a reapropriação e a reconstrução coletiva de um país, desde sua política e seu tecido social até os símbolos constrangidos, como a bandeira nacional. É deixar-se contagiar pelos gritos, as palmas, os batuques, as palavras de ordem, os cantos de contestação. É reencontrar uma potência de humanidade depauperada ao longo de meses, no intuito claro de que ela parecesse tão à míngua que não tivesse mais força de levantar, nem para um último suspiro.

Fotos: Ricardo Barretto

O sábado, 29 de maio de 2021, foi histórico. Foi um reencontro com uma coragem necessária e uma brasilidade vital, que vai muito além do verde e amarelo. Quem estava ali sabia que estava de fato representando quem não pôde ir ou teve receio de se reunir. Ao contrário das Jornadas de 2013, marcadas por pautas difusas, havia no encontro um sentido de bem comum, nos modos de estar presente e no foco que norteava a multidão.

A partir do eixo central que pedia vacinação, fim do genocídio e um basta no governo, despontavam aqui e ali ramificações complementares, como atenção à saúde e educação, a reversão das políticas contra a vida em todas as suas formas, o respeito ativo aos grupos mais vulneráveis à pandemia.

Uma expiração forte do presente doído e uma inspiração profunda e cheia de esperança e vigor em direção ao porvir. Esta sincronia não poderia emergir de uma massa. O que pulsava ali era uma congregação em nome de resgatar o que se quer em termos de vida e de país. Um novo impulso para um novo capítulo. Continua…

*Ricardo Barretto é comunicólogo e educador. Pesquisa relações entre o corpo vivo, fluxos comunicativos e o ambiente. Diretor do ConeCsoma (www.ocorpoconecta.eco.br).

Relação entre deserto e floresta revela conexões como as do corpo

Godzilla foi o nome dado à nuvem de areia vinda da África em direção à América no Hemisfério Norte. Mas esse fenômeno não é novo e tem um lado bem menos assustador. Hoje é sabido que a areia do Deserto do Saara tem participação importante na formação de chuvas e na fertilização dos solos da Amazônia.

Sim, a floresta tem uma relação íntima com o deserto e nos mostra como o planeta é interconectado. Também faz pensar que se em dimensões tão gigantescas existe uma conexão entre fenômenos e formas de vida na natureza, é mais do que esperado que ações humanas que parecem isoladas tenham desdobramentos sobre o meio ambiente.

E que no corpo humano, a mesma dinâmica acontece: nossos órgãos e nossos hábitos, as químicas que nos formam e as que trazemos de fora para dentro – voluntária ou involuntariamente – têm enorme influência sobre a vitalidade do corpo. Reconhecer essa integração é perceber a poesia da fisiologia e assumir

Abaixo, referências para você ir mais fundo nessa reflexão ecossomática.

O que é a ‘nuvem de poeira Godzilla’, que viaja 10 mil km do Saara para as Américas

Do Saara à Amazônia: 4 impactos bons e ruins da poeira que viaja do deserto até a América Latina

Como o deserto do Saara participa do regime de chuvas da Amazônia, a 5 mil km de distância 

Vídeo da Nasa mostra como Amazônia é fertilizada pelo deserto do Saara

 

Foto de Sara Lusitano e imagens de satélite da NASA