O corpo integrado e a sociedade sã precisam mais do que curtidas

Esconderam as curtidas no Instagram para reduzir ansiedade, dependência, competição, frustração. Arriscaria o palpite que a “gigante” das redes sociais teme também ações judiciais em massa, como o que aconteceu com a indústria do cigarro no fim do século XX. Há alguns anos, ações coletivas em virtude de invasão de privacidade já são parte do dia-a-dia do Facebook, por exemplo.

Mas a iniciativa do Insta diz respeito a outros desdobramentos da vida digital: a depressão e a solidão. Seguidores, curtidas e compartilhamentos atestam graus de engajamento, mas não preenchem a alma humana na mesma intensidade que causam dependência – sim, já existem estudos que mostram que o efeito no cérebro é semelhante ao da cocaína.

Essa impossibilidade de preenchimento é porque não sentimos só com os olhos, as pontas dos dedos, e os limitados impulsos elétricos que as telas geram nos neurônios. O corpo é um sistema integrado, em camadas biofísicas, subjetivas, ecosomáticas e outras indefiníveis. Demanda tato, conversa, presença, e vivência com trocas sobre o que é sentir-se em dúvida, descordar, desgostar, estabelecer confiança, encantar-se, identificar-se … com o outro … vivo … presente. Não com a tela!

Os estímulos da presença de um corpo perante outro corpo são inúmeros, vibrantes e necessários para o ser humano. As migalhas que as telas proporcionam são bons aperitivos, mas não fazem um banquete. E quem se alimenta só de salgadinho, acaba adoecendo.

Para viver a era digital com plenitude é preciso corporalizar o cotidiano, cultivar experiências presenciais, relativizar o peso do virtual. Experimentar o coletivo encarnado é também uma oportunidade de construir senso crítico, compaixão e ética. Longe do anonimato covarde, da certeza egocêntrica e da incógnita dos efeitos de um post, de um comentário, de uma fakenews.

Para que essas iniciativas não dependam da boa ação, da gestão de risco ou da crise de consciência das empresas responsáveis pelas redes sociais, precisamos alimentar o sentido de interação encarnada e de comunidade. E precisamos de educação integrada, que olhe par o ser humano não como um produtor, mas pela complexidade que o caracteriza. Vale para os pais, para os estudantes, para os eleitores e para os formuladores de políticas públicas.

Desmatamento revela política atravessando a biodiversidade e o corpo

O forte aumento no desmatamento apontado por números do INPE (instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) foi considerado pelo governo brasileiro como mentirosos. Refutar dados científicos de um desmatamento alarmante é ignorar a condição sistêmica da vida no planeta. E a correlação entre economia, sociedade e, sim, cultura, com a biodiversidade.

O livro “The Ecology of Eden”, de Evan Eisenberg, traz uma boa referência sobre o assunto, mostrando como o declínio da diversidade de um ecossistema é acompanhado pelo declínio na diversidade cultural da sociedade que o habita. Nessa perspectiva, faz sentido que um governo dedicado a enfraquecer a cultura do próprio país, também esteja focado em devastar a natureza que o ocupa.

depositphotos_81394422_xl-2015.jpgDe uma perspectiva ecosomática, é possível ir ainda mais longe na reflexão: atentar contra a diversidade do ambiente é uma medida que faz todo o sentido para um governo que é contra a diversidade dos corpos que vivem interna e externamente, natural e culturalmente, de modo integrado e interdependente. Tanto na floresta, como nas cidades. Esse governo é menos incoerente do que parece.

Pressionar contra o movimento que ele põe em prática, é uma questão de corpo, alma, ciência, política e economia.

 

Perspectiva integrada para a sustentabilidade? Não deixe o corpo de fora

Não é incomum ouvir que corpo e ambiente são indissociáveis, mas nem sempre reconhecemos de fato o quanto isso é norteador na vida humana. Por coincidência, três bons exemplos apareceram esta semana na mídia. E suscitam um questionamento importante sobre a relação entre corpo e sustentabilidade.

O primeiro exemplo vem do independente Mother Jones, que levanta casos e estudos para mostrar como as mudanças climáticas afetam o sistema nervoso de diferentes maneiras. Uma delas revela-se na preocupação e o estresse que o assunto gera em muitas pessoas, principalmente frente à inação de governos. Também, o impacto de desastres naturais sobre a saúde mental, que pode acarretar disrupção social. depressão, estresse pós´traumático e suicídio. E ainda o efeito das ondas de calor que podem afetar a regulação neural do corpo, enfraquecendo nossa habilidade de lidar com emoções, gerando mais agressividade e menos empatia. Os impactos de mudanças nos padrões climáticos podem ser até maiores sobre comunidades tradicionais, relata Rowan Walrath, já que seus laços empíricos e subjetivos com os ciclos da natureza são ainda mais fortes.

Outro caso emblemático, destacado pelo The Ecologist, foi do levante em 15 de fevereiro de alunos em dezenas de escolas no Reino Unido, bradando sua preocupação com a deterioração do clima, a indignação com falta de ação dos políticos e a exigência de novas atitudes em relação ao problema global. Neste caso, temos uma ativação do sistema nervoso – e de todo o resto do corpo – saindo de um padrão de rotina e apatia para um modo de ação contundente, que estimula químicas e ações de ordem individual e também impulsos e conexões do coletivo.

O terceiro destaque vem do Brasil, no artigo de Juliana Zellauy, refletindo na Envolverde sobre porque parece tão difícil ver as pessoas reagindo de forma mais efetiva aos desafios ambientais. Ele busca referência na neurociência e indica, em primeiro lugar, características físicas e químicas do cérebro, que nos fazem reagir muito mais prontamente a problemas próximos e materiais do que a questões mais distantes e impalpáveis, como as mudanças climáticas. Outro argumento é que o cérebro é menos propenso a pensar sobre o mundo de modo sistêmico – que é exatamente o enfoque das questões da sustentabilidade. E o terceiro argumento é que o sistema nervoso dá comandos de afastamento em relação a questões aflitivas – como as que são frequentemente reportadas pelos ambientalistas.

Como três soluções, Juliana aponta o uso de tecnologia e ampliação do sue ensino, para dar conta da realidade sistêmica; o treinamento da mente para aguçarmos a capacidade de um olhar sistêmico sobre o mundo; e manter a perspectiva positiva sobre a realidade, mesmo nas adversidades. Técnicas de meditação e atenção plena, bem como uma mudança drástica no enfoque do ensino – menos segmentado e mais sensorial e conectivo – são caminhos que dialogam com esse panorama.

Mas eu acrescento um outro elemento fundamental e que dialoga diretamente com a falta de perspectiva integrada que ainda impera no pensamento humano. Deixar de encarar as ações e reações humanas como produto do cérebro, do sistema nervoso … como se fossem entidades autônomas, isoladas e hierarquicamente superiores. Se tem algo que a neurociência vem descobrindo em detalhes é que todo o corpo é um grande sistema, integrando arranjos neurais a todas as demais estruturas, habilidades e funções do universo corporal. Se queremos adotar uma perspectiva mais integrada do mundo, é crucial adotar uma perspectiva mais integrada do próprio corpo. Ampliar a potência de cognição, passa desse modo por estimular formas de perceber e mover o corpo que estimulem seu caráter integrado e integrador – não apenas interno, mas relacionado ao próprio meio ambiente e às nossas relações.

Uma evidência dessa potência do corpo foi ressaltada pelo Guardian, que publicou um artigo especial sobre a relação entre atividade física e saúde do sistema nervoso, incluindo a capacidade de regeneração, mesmo na fase adulta e em idade mais avançada.

A proposta de atuação do ConeCsoma, de promover conexões a partir do corpo e para além dele, dialoga diretamente com essas constatações. Não é à toa que o projeto se localiza na perspectiva de integração do corpo, da comunicação e da sustentabilidade. Se vamos lidar com os enormes desafios do século XXI, como as mudanças climáticas, é fundamental começarmos a perceber e mover o universo corporal de maneiras mais conectivas.