O movimento socioambiental acompanha o mundo em transformação?

A pandemia mostrou que, além de conhecimento formal, é preciso nutrir o espírito e os afetos. Estes elementos costumam ser menosprezados no discurso socioambiental, o que ajuda a explicar por que preservar a natureza é algo bem visto nas pesquisas, mas sentido como algo distante pelas pessoas no dia-a-dia

Fomos todos lançados em uma espécie de laboratório em que os experimentos pandêmicos questionam não só as relações com o ambiente, as dinâmicas da economia e as desigualdades na sociedade, mas também os laços de família, as fragilidades do corpo, as possibilidades e limites do virtual, o lugar do contato presencial no século XXI, as condições para a saúde mental, os modos de pensar.

Mas quem acompanha as ações, pesquisas e discursos dos agentes que sustentam a pauta socioambiental reconhece apenas parte desses elementos nos temas abordados – com destaque para a relação entre coronavírus, perda da biodiversidade e lições para a questão climática.

O mundo em pandemia revela que a perspectiva integrada tão cara à sustentabilidade não diz respeito apenas à interdependência entre dimensões ambientais, econômicas e sociais. A vida íntima de cada pessoa em quarentena, em seus matizes emocionais, subjetivos e relacionais, agora está claramente ligada aos rumos do planeta. E são estes seres humanos que ajudarão a delinear prioridades no que está por vir.

Sobre esse futuro incerto, argumentos racionais têm sido apresentados com certa desenvoltura e apontam para a relevância das consequências do desequilíbrio ecossistêmico, da cooperação entre áreas de conhecimento, da demanda por instituições e governança consistentes, e da capacidade de adaptação humana. Mas tais argumentos estão restritos à ordem pragmática: como analisar, como operar, como reestruturar, como resolver.

Essa é uma realidade que se repete mundo afora, onde possíveis desdobramentos da pandemia incluem um plano de recuperação na Europa associado à questão do clima, e a indicação de que Joe Biden fará do Green New Deal sua bandeira de campanha para a recuperação da economia nos Estados Unidos.

No entanto, o pragmatismo dessas estratégias guarda um estímulo de fundo mais emocional: o diálogo com anseios da juventude, personificada no impulso apaixonado de Greta Thunberg, na Europa, e nas vozes dos jovens seguidores de Bernie Senders, nos EUA, confiantes de que podem mudar o mundo. Os sinais de ajuste de rota no Hemisfério Norte poderiam até estimular a China a intensificar o coeficiente verde de suas ações pós-pandemia.

Já no Brasil, esse panorama não implica uma grande guinada, uma vez que o atual governo é avesso a agregar o elemento socioambiental ao desenvolvimento, enquanto o Congresso é bastante conservador – o que poderia representar uma barreira a políticas de caráter mais sustentável, mesmo na hipótese de uma mudança de governo. Nesse contexto, a opinião pública seria essencial para impulsionar uma retomada econômica que valorize natureza e sociedade.

Especialistas e entusiastas que dispõem de espaço nas mídias podem engrossar o coro da opinião pública que defende uma recuperação mais verde e inclusiva no Brasil, se o quadro internacional de fato se mover no sentido de novas economias descarbonizadas. A pressão consistente nas redes sociais é o que hoje contribui decisivamente para mudar os humores de políticos e organizações. A população, entretanto, agrega impulso limitado a essa dinâmica, já que historicamente defende a integridade socioambiental por espasmos que surgem das grandes hecatombes.

Nesse sentido, imaginar um país que siga sua vocação de economia verde e inclusiva, e acompanhe uma eventual mudança nos rumos da história global, significa olhar não só para os argumentos lógicos que apoiam essa guinada. É também contar com um espírito coletivo permanente que de fato sinta o valor de atrelar a economia à preservação da natureza e das pessoas afetadas por ela. Ou seja, é preciso, para além de uma abordagem racional, estimular a sensibilidade brasileira, tão combalida pela história recente da polarização e dos negacionismos.

Ailton Krenak tem repetido que uma enorme falha na concepção de “desenvolvimento sustentável” é que este não dialoga com a ausência de intimidade e do sagrado na relação dos cidadãos com a natureza.

Sim, a ciência é fundamental, assim como a política. Mas o que a pandemia tem nos ensinado é que juntamente com as questões básicas da existência – comida, renda, segurança, saúde – estamos acometidos e identificados também por questões mais subjetivas: falta de abraço, saudades de pessoas queridas, dificuldade nos relacionamentos em casa, ansiedade entre paredes e telas, privação de mobilidade física e geográfica, baixa inspiração, instabilidade na saúde mental, afrouxamento das aspirações humanas, fé colocada à prova…

Para o corpo, que é nosso universo de percepção e expressão no mundo, não há distinção: se conseguir o que comer mas estiver prejudicado nos aspectos sensíveis, ainda assim sentirá um vazio.

Trocando em miúdos, as ações humanas e a pauta socioambiental estão atreladas a elementos que dão sentido à vida, de modo geral. A vida com sentido tem valor e é mais bem cuidada. A vida como números e dados digitais é mais descartável, pois não instiga afeto. Estabelecer vínculo é, portanto, essencial para dar sentido à vida, seja na dimensão macro que nos conecta à ecosfera, seja nutrindo essências humanas. A falta de sentido na vida e de vínculos contribui enormemente para atitudes que degradam a natureza, vitimizam pessoas na sociedade, geram comportamentos autodestrutivos.

Tal constatação é ainda mais relevante nesse momento de isolamento social, que reduz a potência existencial, experiencial e relacional do humano, adensando um estado coletivo de ansiedade e escassez sobre o sentido da vida. É urgente, portanto, integrar o conhecimento formal com a necessidade de nutrir o espírito, os afetos. Elementos estes que comumente são menosprezados no discurso socioambiental e ajudam a explicar por que preservar a natureza é algo bem visto nas pesquisas, porém é sentido como distante pelas pessoas no dia-a-dia.

No mundo da lógica racional, sempre foi óbvia para o movimento socioambiental a necessidade de apresentar os dados e apontar os dedos. Mas em um mundo privado de afetos, ansiando por vínculo, o diálogo ativista com as transformações de que tanto se fala deve também empenhar sua dose de mudança. Instigar ainda mais pessoas a se envolverem com a pauta socioambiental de modo perene não depende apenas de boas imagens, discursos marotos, manifestações ruidosas e dados irrefutáveis.

É preciso que os cidadãos estejam nutridos em seu arranjo sensível para estabelecer vínculos e uma relação de cuidado nas dimensões do si mesmo, do outro, do coletivo, do ecossistêmico.

O movimento socioambiental aposta que é possível desviar a humanidade da rota que leva a mundo de epidemias sem fim, catástrofes climáticas, extinção da biodiversidade e disrupção de ciclos naturais. Então é preciso focar não só nos problemas, mas também no principal fator que determina se e como cuidamos da vida: as camadas profundas do humano. Um desafio hercúleo, de fato, mas que responde à complexidade da crise que vivemos.

Artigo publicado na coluna de Ricardo Barretto em maio na Revista Página22:

O movimento socioambiental acompanha o mundo em transformação?

Edição 20 do FIS aborda as ONGs socioambientais

A cada ano acontecem duas edições da Formação Integrada para a Sustentabilidade. Uma disciplina eletiva da graduação da FGV em São Paulo que tem uma metodologia bastante ousada e inovadora, baseada na Teoria U, de Otto Scharmer (MIT), e na Transdisciplinaridade. A ideia é promover uma investigação em torno de um termo real da sustentabilidade, em que os alunos explorem simultaneamente experiências de autoconhecimento. Para tanto, são trazidas várias perspectivas de conhecimento, incluindo o corpo, além de contato com especialistas, realidade de campo e experiências de caráter transdisciplinar.

Ricardo Barretto, mentor do ConeCsoma, acompanha o curso desde a primeira edição, mas foi a partir do FIS 11 que passou a trazer seu olhar de educação somática e sustentabilidade para agregar novas perspectivas ao processo formativo. A atual edição marca dez anos dessa história. O desafio do FIS 20 para esse primeiro semestre de 2020 é: Produzir uma websérie que apresente a história e o papel das ONGs socioambientalistas para o desenvolvimento sustentável no Brasil.

Este Projeto Referência envolve:

  • Pesquisar diversas linguagens e formatos para webséries.
  • Aprender as características e as técnicas para sua produção.
  • Compreender histórica e conceitualmente o que são os movimentos socioambientais promovidos pela sociedade civil organizada.
  • Compreender os tipos de organizações da sociedade civil existentes, suas fontes de financiamento, suas formas de atuação.
  • Mapear os atores envolvidos na discussão sobre o papel das organizações da sociedade civil nas temáticas socioambientais, o que inclui governos, empresas e sociedade.
  • Criar a(s) narrativa(s) que conectam o contexto socioambiental brasileiro com a atuação das ONGs.

O projeto também demanda:

  • Produzir uma websérie que dialogue com os pilares da Transdisciplinaridade, com no mínimo 6 episódios compatível com o formato, conteúdo e comunicabilidade.
  • Montar a estratégia de divulgação e viralização da série.
  • Trazer a voz das pessoas por trás das ONGs e demais atores envolvidos no tema.
  • Pautar os episódios da websérie não só nos depoimentos, mas em referencial teórico e dados científicos.
  • Trazer os conhecimentos e saberes tradicionais, ampliando a percepção do paradigma da realidade.
  • Usar do Belo, da estética, para comunicar uma ética.
  • Colocar legendas em inglês para que a série tenha alcance internacional.
  • Viabilizar financeiramente a produção da websérie e do evento.
  • Lançar a websérie, que será nossa banca avaliadora, dia 28/05 (quinta-feira) às 18h, em evento organizado pelos alunos.

Contexto

“Assim nesse clima quente
No espaço e tempo presente
Meu canto eu lanço, não meço
Minha rima eu arremesso
Pra que nada fique intacto
E tudo sinta o impacto
Da ação de cada canção
Preparem-se irmã, irmão
Que isso é só o começo
É só o começo
É só o começo.”
Lenine

Em 2019, as Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam no Brasil foram colocadas à prova. Foram acusadas de estarem ligadas às queimadas da Amazônia e ao derramamento de óleo no litoral. Houve pedidos para que a população não doasse para elas e também a assinatura de medida provisória dando poder à Secretaria de Governo para “coordenar sua interlocução” com ONGs e movimentos sociais.

Em meio a tantas declarações polêmicas se faz necessário um resgate histórico e factual sobre a atuação das ONGs sobre as questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável. Afinal, se elas surgem, essencialmente, para suprir deficiências do Estado, cumprindo um papel adicional de assistência, proteção de direitos e de sustentação dos interesses públicos, quais as contribuições dessas organizações para a constituição e avanços da agenda da sustentabilidade?

Na última edição da pesquisa “As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil 2016” feito pelo IBGE e lançado esse ano, o Brasil contava com 237 mil ONGs, estando a maior parte delas localizada nas regiões Sudeste (48,3%) e Sul (22,2%). Em seguida aparecem Nordeste (18,8%), Centro-Oeste (6,8%) e Norte (3,9%).

São consideradas ONGs instituições privadas sem fins lucrativos legalmente constituídas que atuam nas mais diversas áreas. A maioria das ONGs no Brasil tem vocação religiosa (35,1%) ou trabalha com cultura e recreação (13,6%). Em seguida estão as que atuam no desenvolvimento e defesa de direitos (12,8%), associações patronais profissionais (12,2%), as de assistência social (10.2%) e apenas nos últimos lugares estão as de educação e pesquisa (6,7%), saúde (2%), meio ambiente e proteção animal (0,7%) e habitação (0,1%).

Em 2018, o governo federal transferiu R$ 6,7 bilhões para ONGs, mas segundo pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis) realizada com 100 ONGs, destacadas como as melhores do Brasil, a principal fonte de financiamento delas vem de: doação de empresas e indivíduos, venda de produtos e eventos. Recursos internacionais são apenas 9% de suas fontes. Para o Idis, o Brasil ainda não tem uma cultura de filantropia madura como outros países, sendo os principais fatores que contribuem para isso o desconhecimento e a desconfiança.

Assim, o FIS 20 produzirá uma websérie, ou seriado feito para internet, para apresentar o papel das ONGs socioambientalistas no Brasil. As webséries costumam ter produção menos esmerada que as séries de TV, com elenco sem estrelas e exploram o potencial viral da rede.

Perspectiva integrada para a sustentabilidade? Não deixe o corpo de fora

Não é incomum ouvir que corpo e ambiente são indissociáveis, mas nem sempre reconhecemos de fato o quanto isso é norteador na vida humana. Por coincidência, três bons exemplos apareceram esta semana na mídia. E suscitam um questionamento importante sobre a relação entre corpo e sustentabilidade.

O primeiro exemplo vem do independente Mother Jones, que levanta casos e estudos para mostrar como as mudanças climáticas afetam o sistema nervoso de diferentes maneiras. Uma delas revela-se na preocupação e o estresse que o assunto gera em muitas pessoas, principalmente frente à inação de governos. Também, o impacto de desastres naturais sobre a saúde mental, que pode acarretar disrupção social. depressão, estresse pós´traumático e suicídio. E ainda o efeito das ondas de calor que podem afetar a regulação neural do corpo, enfraquecendo nossa habilidade de lidar com emoções, gerando mais agressividade e menos empatia. Os impactos de mudanças nos padrões climáticos podem ser até maiores sobre comunidades tradicionais, relata Rowan Walrath, já que seus laços empíricos e subjetivos com os ciclos da natureza são ainda mais fortes.

Outro caso emblemático, destacado pelo The Ecologist, foi do levante em 15 de fevereiro de alunos em dezenas de escolas no Reino Unido, bradando sua preocupação com a deterioração do clima, a indignação com falta de ação dos políticos e a exigência de novas atitudes em relação ao problema global. Neste caso, temos uma ativação do sistema nervoso – e de todo o resto do corpo – saindo de um padrão de rotina e apatia para um modo de ação contundente, que estimula químicas e ações de ordem individual e também impulsos e conexões do coletivo.

O terceiro destaque vem do Brasil, no artigo de Juliana Zellauy, refletindo na Envolverde sobre porque parece tão difícil ver as pessoas reagindo de forma mais efetiva aos desafios ambientais. Ele busca referência na neurociência e indica, em primeiro lugar, características físicas e químicas do cérebro, que nos fazem reagir muito mais prontamente a problemas próximos e materiais do que a questões mais distantes e impalpáveis, como as mudanças climáticas. Outro argumento é que o cérebro é menos propenso a pensar sobre o mundo de modo sistêmico – que é exatamente o enfoque das questões da sustentabilidade. E o terceiro argumento é que o sistema nervoso dá comandos de afastamento em relação a questões aflitivas – como as que são frequentemente reportadas pelos ambientalistas.

Como três soluções, Juliana aponta o uso de tecnologia e ampliação do sue ensino, para dar conta da realidade sistêmica; o treinamento da mente para aguçarmos a capacidade de um olhar sistêmico sobre o mundo; e manter a perspectiva positiva sobre a realidade, mesmo nas adversidades. Técnicas de meditação e atenção plena, bem como uma mudança drástica no enfoque do ensino – menos segmentado e mais sensorial e conectivo – são caminhos que dialogam com esse panorama.

Mas eu acrescento um outro elemento fundamental e que dialoga diretamente com a falta de perspectiva integrada que ainda impera no pensamento humano. Deixar de encarar as ações e reações humanas como produto do cérebro, do sistema nervoso … como se fossem entidades autônomas, isoladas e hierarquicamente superiores. Se tem algo que a neurociência vem descobrindo em detalhes é que todo o corpo é um grande sistema, integrando arranjos neurais a todas as demais estruturas, habilidades e funções do universo corporal. Se queremos adotar uma perspectiva mais integrada do mundo, é crucial adotar uma perspectiva mais integrada do próprio corpo. Ampliar a potência de cognição, passa desse modo por estimular formas de perceber e mover o corpo que estimulem seu caráter integrado e integrador – não apenas interno, mas relacionado ao próprio meio ambiente e às nossas relações.

Uma evidência dessa potência do corpo foi ressaltada pelo Guardian, que publicou um artigo especial sobre a relação entre atividade física e saúde do sistema nervoso, incluindo a capacidade de regeneração, mesmo na fase adulta e em idade mais avançada.

A proposta de atuação do ConeCsoma, de promover conexões a partir do corpo e para além dele, dialoga diretamente com essas constatações. Não é à toa que o projeto se localiza na perspectiva de integração do corpo, da comunicação e da sustentabilidade. Se vamos lidar com os enormes desafios do século XXI, como as mudanças climáticas, é fundamental começarmos a perceber e mover o universo corporal de maneiras mais conectivas.