Ciclos convidam a perceber e questionar

Quando fenômenos se repetem. Quanto têm começo, meio e fim. Quando marcam passagem do tempo. Quando viram registro ou referência para lembrar e reconhecer. Quando integram outros fenômenos em uma mesma dinâmica.

Assim se fazem os ciclos, desde a natureza (do cosmos às células e seus constituintes), passando por nós humanos – tanto no que é orgânico, como no que é sensação, sentimento e pensamento – e revelando o que nos faz sociedade: economia, destruição, colaboração, afetos…

Alguns ciclos se estabelecem independente da nossa vontade ou ação, nos resta observá-los e interagir – como nas estações do ano. Outros nos provocam o autoquestionamento, a necessidade de romper com o que drena fluxos da vida. É o que acontece nos relacionamentos perversos, nos conflitos, na inércia.

E há também aqueles ciclos que se fazem a partir de um olhar, de uma intenção, de um tipo de presença … de uma opção por interagir e transformar. São os ciclos que criamos nós mesmos, com todos os sentidos do corpo, interagindo com os ambientes que nos envolvem e com as relações que atravessam a sociedade. Estão na arte, nos rituais, nos desafios ao status quo, na construção de amizades…

Na perspectiva do humano, os ciclos são um convite para desfrutar um quê de poético que a vida tem e às vezes passa batido quando existimos em modo automático.

O corpo e a natureza nos ensinam a conviver com os ciclos, que muitas vezes demandam energia e serenidade para nos mantermos presentes, confiantes, permeáveis, apesar dos indícios. Pense na política hoje. Pense na crise ambiental.

Ao mesmo tempo em que lembram que nunca existe um ciclo único. Ciclos diferentes convivem a todo tempo e se alguns podem ser mais exaustivos, outros podem ser fertilizadores e transformadores. Um corpo que vence os efeitos de um acidente. Um ecossistema que se regenera após o fogo. Uma nação que vence injustiças.

Reconhecer e dialogar com os ciclos abre espaço para autoconhecimento, conexão com dinâmicas da sociedade e da natureza. Com noções de finitude, criação, renovação, memória, afeto, coletividade e autonomia. Do que é incontrolável e do que é acalentador.

SELECIONAMOS CONTEÚDO INSPIRADOR PARA VOCÊ IR MAIS FUNDO NESTE ASSUNTO:

20180603_ciclos_crcls

 

Técnica e linguagem na base de nossa relação com o mundo

Quando se pensa nos ancestrais do ser humano, aqueles que habitavam cavernas, a impressão pode ser mais de um mito do que de uma passagem de nossa história. Eles viviam de um jeito distante do que a espécie humana se tornou. Mas já revelavam elementos básicos da nossa existência no planeta. Um deles é a técnica: usavam objetos e criavam artefatos para conseguir comida, fazer pinturas nas paredes, modificar o ambiente onde viviam. O outro é a linguagem: os desenhos nas pedras indicavam desejo de comunicar. Impulso comum à fala, à escrita, às artes, aos códigos.

As pinturas nas cavernas feitas por nossos ancestrais não eram só desejo de comunicação. Eles expressavam também a capacidade humana de pensar e representar a relação com o mundo por meio da técnica. Como no caso das cenas de caça, pintadas com uma mistura de sangue e terra, mostrando o uso de lanças e estratégias para capturar a presa. Tão longe e tão perto do que temos hoje: alguém desenvolve um sistema digital para publicar imagens, dividir pensamentos, mostrar o que come, reclamar de uma conexão da Internet que deixa a vida leeenta.

De eras remotas à digital, técnicas para lidar com o ambiente ou criar linguagem são tão intrínsecas ao ser humano que há quem o chame Homo sapiens technologicus. Lá atrás, essa conexão era identificada pela apropriação da natureza para proteger o corpo, ampliar sua capacidade de ação e facilitar trocas e diálogo. Hoje, um app nos mostra o caminho a seguir, um dispositivo regula um coração preguiçoso, uma câmera leva a visão aos confins do planeta, um celular expressa nossas ideias e sentimentos. Olhar para os rastros dessa relação com a técnica nos ajuda a pensar sobre quem somos e os limites do modo como vivemos.

SELECIONAMOS CONTEÚDO INSPIRADOR PARA VOCÊ IR MAIS FUNDO NESTE ASSUNTO: